FLOEMA ESPECIAL LUIZ COSTA LIMA (2B)
Ano II, n.2B, out.2006
ISSN 1807-541X
Sumário Editorial ................................................................................. 7 (leia abaixo)
Artigos
Implicações da Brasilidade Luiz Costa Lima...................................................................... 13
O “Manifesto Antropofágico” sob Três Tempos
Luiz Costa Lima...................................................................... 23
A Teoria da Literatura entre nós
Luiz Costa Lima...................................................................... 33
Não, a Terra não é Redonda
Luiz Costa Lima
Tradução do espanhol: Marília Librandi Rocha.......................... 41
O Não-Figurativo (Um Fragmento)
Luiz Costa Lima...................................................................... 53
O Pensar como Abismo
Luiz Costa Lima...................................................................... 71
(Ano II, n.2B, p.7-9, out.2006)
Editorial
Floema Especial Luiz Costa Lima reúne seis textos do Autor dos quais apenas um se encontra até o momento publicado. Escritos para ocasiões diferentes, no Brasil ou na Alemanha, cinco deles continuam inéditos, embora com publicação prevista no exterior.
A coletânea principia por “Implicações da Brasilidade” (2005), estudo que procede a um exame histórico-social da relação entre identidade nacional e literatura no século XIX, quando as representações do Estado-nação brasileiro buscavam uma caracterização identitária nas particularidades da natureza americana; como ele próprio diz “a necessidade de constituir uma nação que desse vida e concretude ao aparato burocrático-coercitivo do Estado promoveu uma cultura pra inglês ver”. Contudo, tal proposta de uma imagem do Estado-nação acabou por redundar em dois problemas sistêmicos nas Letras brasileiras: 1) ao escritor cabe a elaboração de uma obra “fluentemente rasteira”, pois condicionada pelos receitos privilegiados na idéia de nação institucionalizada (nativismo, pitoresco, afetividade, etc); 2) à recepção cabe a demanda por obras cujos teores de reflexividade e crítica fossem suficientemente baixos a ponto de não ultrapassarem o limite do tolerável. A situação atual da produção intelectual é ainda mais grave caso não se repense a noção assente de literatura como documento de brasilidade.
Em “’O Manifesto Antropófago’ sob três tempos” (2006), Costa Lima analisa o percurso da obra de Oswald de Andrade, sua recepção desde o lançamento do “Manifesto” em 1928, seu posterior oblívio, até ser recuperada no tempo da ditadura que se instaura em 1964, quando sua afirmatividade era concebida como desrepressora e libertária, e seu atual descaso assinala um tempo no qual a razão instrumental neutraliza o experimentalismo no campo das artes, na medida em que a produção intelectual se converte em uma sucursal da “indústria cultural”.
Em “A Teoria da Literatura entre nós” (2006), Costa Lima retoma reflexão sobre a precariedade e o utilitarismo a que a teoria é submetida no ensino brasileiro, historicizando a situação da disciplina desde o século XIX aos dias de hoje, realçando seu necessário caráter de indagação reflexiva inexistente entre nós. Por outro lado, afirma ser necessário, no âmbito dos estudos literários produzidos no Brasil, que se empreenda uma crítica sistemática da correlação histórica, surgida no século XIX, entre nacionalidade e literatura, na medida em que a primeira implicou o conceber as Letras como documento histórico, sociológico e naturalístico, eliminando a indagação sobre o que é a ficção.
No texto “Não, a terra não é redonda”, Luiz questiona a uniformidade pressuposta na noção de “globalização” e realça a assimetria dos lugares de centro e margem, assim como suas diferenças em relação à produção, recepção e circulação das artes, definindo quatro tipos de atuação, quer o agente provenha de um lugar central ou periférico: o automatizado ou de exploração de limites, no primeiro caso, o imitativo ou de explosão de limites, no segundo caso. Thomas Mann, Adorno, Kafka, Edward Said, Garcia Márquez exemplificam cada qual a seu modo as assimetrias.
No denso ensaio “O não-figurativo (um fragmento)” (2004), uma tela de Kandinsky e outra de Mondrian são analisadas como fragmento de uma reflexão maior a respeito da pintura moderna abstrata e sua relação com a “problemática do sujeito”, sua autonomia ou dissipação, e a definição de dois modos de atuação da mímesis.
O último texto, "O Pensar como Abismo" (2004) foi escrito para ser publicado como posfácio de livro de um autor romeno, Calin-Andre Mihailescu, atualmente professor no Canadá (Western Ontario University). Sua publicação em Floema permite-nos conhecer, a partir da apresentação que dele faz Costa Lima, a reflexão de um autor da Europa Centro-Oriental, que “converte a ruína da utopia em objeto de reflexão ativa”, seja a partir mesmo de uma reflexão sobre o Utopia (1516) de Thomas More, seja pela crítica à modernidade dominantemente monetária, seja pela análise do “l’amor de lohn” na poesia trovadoresca, na qual a paixão não domada contrasta com a assepsia da paixão moderna, seja no subseqüente questionamento da hermenêutica e na leitura da mística e sua diferença frente ao ficcional e ao erótico.
Conclui-se assim este Floema Especial Luiz Costa Lima com a abertura para outros campos de reflexão e outros mapas nos quais possamos de-situar a reflexão sobre literatura-identidade-nação e atuar in-scape, seja nas margens como no centro.
Marcello Moreira
Marília Librandi Rocha
Editores